CRÔNICA: Orgulho guardado em oito anos

11:13








-Você.-disseram depois do esbarrão.
Ela revirou os olhos, ele sorriu. Ela passou por ele sem cerimônia, não queria falar com ele,nem com ninguém durante aqueles dias, após a morte de sua mãe. Ela se sentia ainda mais oca, do que antes. Um vazio indiscutível, Um vazio grande demais. O mesmo vazio, a mesma dor, de quanto terminara com ele.
Ele logo a alcançou, sem grande dificuldade, mesmo que ela estivesse em uma pequena corrida. Ela sabia que ele estava perto, perto demais, ela pensou. Ele segurou o braço dela, com cuidado porém firmemente, a impedindo de continuar, sua fuga.
-Me solte. - ela murmurou entre dentes.
Ele deu um sorrisinho maroto.
-Hoje iremos conversar. Conversar de verdade. Já cansei dos nossos você. -e então ele notou. Ele notou as manchas roxas, em baixo dos olhos dela, vermelhos. Seu rosto inchado pelo choro, ela nem retrucou. Se livrou da mão dele em seu braço e continuou andando, fez menção com a cabeça para ele a seguir.
Caminharam em silêncio por quase meia hora, na orla da praia. Pararam em uma barraquinha qualquer e compraram cada um sua própria água, ao que parece, eles eram estranhos, talvez conhecidos aos olhos dos outros.
Se sentaram na areia ainda quentinha pelo sol, apreciaram o sol sendo engolido pela imensidão do mar.
-Porque está com o rosto inchado, porque chorou? -ele perguntou, a preocupação era notável em sua voz.
Ela o olhou. Indiferente. Era aquele olhar meio gélido. Sem vida, sem importância, ele percebeu.A verdade é que ela já não era mais aquela adolescente risonha, e irresponsável. Antes ela deveria ser mais responsável,e não era. Hoje ela era, mas não ria.
-Minha mãe morreu. Faz quase vinte dias. -ela retruca, embora esteja sofrendo por dentro, não demonstraria para ele. Ela não o deixaria ver suas fraquezas novamente. Aliás não deixaria ninguém mais ver.
-Eu... -ele inspirou,e o odor da água do mar, passeou por seus poros, ele estava sem fala. - sinto muito. Eu realmente gostava dela.
A moça riu sem humor.
-Não, você gostava da torta de frango dela. -ela retrucou, pela primeira vez em oito anos, brincalhona.
-Talvez, eu gostasse.
Silêncio.
Um silêncio incrivelmente bom, daqueles que a gente nunca quer que acabe, um silêncio de cumplicidade. Silêncio de quem conhece o outro perfeitamente bem, para não ter que falar.
-Porque foi embora? Porque abandonou todos e tudo? Porque me deixou? -ele pergunta, e se assusta ao perceber a verdade não dita, como se, ele não a falasse não a fizesse real, mas ao som das palavras que saíram de sua boca, ele notou que era a mais profunda verdade. A verdade que o matou por oito anos.
-Não tinha nada que me prende-se lá realmente. -ela deu de ombros - Não depois do que descobri.
Silêncio.
-O que descobriu?
-Muitas coisas, e poucas também. Não vou jogar a culpa em ninguém, porque a culpa é unicamente minha, e eu tenho que conviver com ela,ambos seguimos em frente e estamos bem.
Ele balançava a cabeça, negativamente.
-Mon chéri, tudo que não estamos é bem. - a pele dela se arrepiou ao ouvir o apelido francês, que ele usava com ela. Ele pareceu perceber. -Nunca consegui usar esse apelido com mais ninguém, mon chéri, nunca tive a oportunidade de usa-lo novamente.
-Está tendo agora.
Ele suspirou.
-Por quanto tempo? Ei, sabia que me deixou destroçado? Incapaz de sentir a palavra que começa com A? -ele refiria-se a palavra amor, e ela sabia disso, sentiu o mesmo nesses oito anos.
-Eu não sei, por quanto tempo quiser? Nunca te impedi de chamar ninguém assim, impedi? E sim eu sei, que te deixei destroçado...Eu também estava, eu me senti horrível. Eu me senti vazia. Você tem ideia do que fez comigo? Você me mudou completamente... existia uma fase antes de você e uma após, você. E eu nunca senti tanta dor, em dizer um adeus, depois da morte de meu pai,e de minha mãe. Eu nunca me senti tão mal. Eu ainda me sinto mal. Em oito anos, é a primeira vez que me sinto um pouquinho melhor.
-Isso é bom não, é?
-É, é sim. Fantástico.
Silêncio.
-E a cafeteria? Continua com ela?
Ela o fitou, seu olhar era um misto de incredulidade,e diversão, e ele viu o brilho no olhar dela, então percebeu que aquele era o maior sonho dela, os olhos se iluminarão  com a simples menção da cafeteria.Ela sorriu genuinamente, pela primeira vez, depois de oito anos.
-Você sabe que sim. Aquele era meu maior sonho... É fantástico como ela evolui junto comigo.
-Nunca mais fui lá depois do dia do elevador. Fui de  procurar, levei seu chá favorito.
-Eu... não estava bem naquele dia.
-É, estava de ressaca. -ele disse. Ela o olhou descaradamente um tanto assustada, ele riu - Vi aquela carinha muitas vezes para esquece-la. Você só bebe, quando está sobrecarregada.
-Esqueci que estou do lado da pessoa que mais me conhecesse, e que está viva nesse mundo.
Eles riram.
-E eu esqueci que estou do lado da pessoa que não sabe ter uma ressaca. -ele disse, divertido.
-Foi por sua causa. - ela disse baixinho depois de mais algum tempo de silêncio.Ele escutou.
-Por minha causa? - sua voz era surpresa.Um sorriso se formou em seu rosto.
-É droga. É tão difícil entender? Você não sai daqui -ela apontou pra cabeça, e em seguida pro coração - nem a base de porrada comigo mesma. Caramba, eu lutei tanto. E na véspera do dia do elevador,era...
-O nosso aniversário. -ele completa.- Mas fico incrivelmente, grato por te encontrar hoje. Não vou largar do seu pé. Não vou mais te perder, por conta de coisas.
-Isso  é bom não é? -disse, e ele assentiu -Eu sempre quis ter um carrapato de estimação.

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2 comentários

  1. Um encontro pelo meio um silêncio calmante ,depois das perguntas e respostas dos porquês que a vida pelo meio concedeu ,nada como ver que é sempre bom ter um amor ,amar e ser amada ,talvez como o famoso carrapato colado a nós kkkk ,muitos beijinhos e um feliz Domingo Sara .

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    1. Pura verdade. kkk Um bom carrapado as vezes vale a pena




































      Pura verdade... As vezes um bom carrapato vale a pena -ou a galinha como dizemos aqui no Brasil... Ser amado, e amar, é a coisa mais especial que alguém poderia querer. E estamos sempre nessa incessante busca.













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