CRÔNICA: Não, eu não quero namorar contigo...

21:31





Certa vez você disse que me amava. Você me roubou um beijo que foi concedido. Mas se foi concedido não é um roubo necessariamente, certo? Não faço a mínima ideia. Logo depois, encostamos nossas testas e olhamos um nos olhos do outro, envergonhada, acabei escorando a cabeça em seu peito. Tínhamos intimidade o bastante para isso, uma amizade de uma vida inteira, eu diria.

No dia seguinte acordei com uma mensagem de bom dia. Eu sabia que você insistiria. Você tem insistido nisso, em um possível nós, há um ano. Eu rodopiei pelo quarto depois que você foi embora, nervosa, sem saber o que fazer. O que seria agora? Eu sabia que não o amava, não como você queria. E isso doeu, porque eu o tenho em alta estima para pensar em magoar-lhe com falsas esperanças. Com um futuro que eu sempre soube que não existiria.

Não, não tem nada a ver com o laço que sempre nos uniu. Não importa que tenham laços que foram fortificados em nossas famílias. Nós não fortificaremos o nosso. Eu sempre soube que eu o magoaria. Liguei para minha prima desesperadamente naquela tarde de domingo, buscando auxilio. E quando soube ela simplesmente riu. Não, rir não. Gargalhou.

Foi um dia muito bom. Com vários sentimentos. Mas no final dele eu ainda não sabia como agir com aquele gesto de despedida breve, desajeitado, leve e bom. Após poucas palavras na manhã daquela segunda, você me perguntou: Quer namorar comigo?

Inventei mil desculpas. Disse que ainda tinha muito a viver, que estava incerta e que não daria certo, que poderia ser algo platônico, e que eu realmente não me sentia pronta. Não depois de começar a me recuperar de uma grande decepção amorosa. Eu não queria me arriscar, ainda não quero. Você ficou chateado, como das outras vezes, mas... O que eu poderia fazer? Eu estava pensando em nós. Em não iludi-lo com algo que eu não sinto e que eu nunca vou sentir. Em não machuca-lo como fui machucada. Entretanto você, num gesto típico de paciência e persistência soltou um ''tudo bem, entendo você.'' Eu realmente esperava que entendesse.

Eu queria desesperadamente dizer não, mas me protelei. Você entendeu o recado, eram as  mesmas desculpas de um ano atrás, não eram? Fiquei pensando a semana inteira naquele beijo. Não posso dizer que tive arrependimentos, mas me perguntei por vezes ''Foi o certo? Eu o iludi?''

Já se passaram alguns dias. Semanas.E só hoje percebi o real motivo que me levou a protelar e por fim dizer não, eu queria que fosse de um jeito delicado, só que, meu bem, um não nunca saí de maneira delicada, -quase nunca.

Era seu caráter. Desculpe, mas temo dizer que sim. Como você um garoto que sempre, e eu digo realmente sempre  foi carinhoso comigo, que sempre se importou, se metesse em tantas encrencas? Como o garoto que conheci, se mete em brigas como alguém sem controle? Como alguém que nem você, poderia tratar os mais velhos daquela maneira, desafiando-os, chateando-os. Como o garoto que conheci parece ter duas faces?

E eu ainda o amo. Não como você espera, nem como amigo, mas com um amor fraternal. E é por isso, junto sua junção de mudanças, junto sua carência de um português decente - que eu corrijo mas você ignora veementemente, que me causa gastura -  e junto esse amor fraternal,  junto seu jeito moleque quando eu quero mais que um simples moleque que eu digo que não há futuro. Que eu digo um não sincero que talvez não seja indolor. Mas qual não é? Não, eu não aceito namorar contigo.

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