Carta 02 - disponível no Wattpad como Destruíndo Amélie

21:32



Eu queria dizer que eu tinha avisado. Mas eu não posso dizer que fiz algo que não fiz. Eu menti por muito tempo, não quero mentir pra você de novo. Não quero mentir para mim mesma de novo. Eu deveria ter gritado quando pude. Eu deveria ter gritado para que não se aproximasse. Eu deveria ter gritado isso enquanto corria, para bem longe. Sem olhar para trás porque atrapalhada como sou, eu cairia sobre meus próprios pés se estivesse olhando em seus olhos negros com um brilho tão intenso que eu sabia que você poderia ver minha alma.

 Eu sempre soube que você colocaria todos os meus planos a perder. E eu não fiz nada a respeito. Eu fiquei estagnada. Eu não corri. Não gritei. Eu mal tinha piscado e então você sorriu. Aproximou-se como um leão prestes a dar o bote na presa que os outros do bando não conseguiram pegar.

 Você foi direto à minha jugular. Sorriu. E céus, você tinha covinhas. Eu que sou cheia de problemas e nunca havia sentido isso, me apaixonei pelas suas covinhas, que são problemas genéticos charmosos.Meu coração falhou uma batida. Eu sabia. Você sabia disso também, porque seu sorriso se alargou. Você soube quando colocou os olhos em mim que sua presença me afetava. Eu soube quando coloquei meus olhos em você que eu nunca mais seria a mesma.

 E eu nunca estive tão certa.Eu era a presa.Você era o leão, a última carta na manga. Você era quem diria o xeque mate, num jogo que eu dominava muito bem até você chegar.  Minha amiga riu. Na verdade gargalhou. E sussurrou:
 − The end. 
 E sim, aquele era o fim. O meu fim.


CRÔNICAS

CRÔNICA: Não, eu não quero namorar contigo...

21:31





Certa vez você disse que me amava. Você me roubou um beijo que foi concedido. Mas se foi concedido não é um roubo necessariamente, certo? Não faço a mínima ideia. Logo depois, encostamos nossas testas e olhamos um nos olhos do outro, envergonhada, acabei escorando a cabeça em seu peito. Tínhamos intimidade o bastante para isso, uma amizade de uma vida inteira, eu diria.

No dia seguinte acordei com uma mensagem de bom dia. Eu sabia que você insistiria. Você tem insistido nisso, em um possível nós, há um ano. Eu rodopiei pelo quarto depois que você foi embora, nervosa, sem saber o que fazer. O que seria agora? Eu sabia que não o amava, não como você queria. E isso doeu, porque eu o tenho em alta estima para pensar em magoar-lhe com falsas esperanças. Com um futuro que eu sempre soube que não existiria.

Não, não tem nada a ver com o laço que sempre nos uniu. Não importa que tenham laços que foram fortificados em nossas famílias. Nós não fortificaremos o nosso. Eu sempre soube que eu o magoaria. Liguei para minha prima desesperadamente naquela tarde de domingo, buscando auxilio. E quando soube ela simplesmente riu. Não, rir não. Gargalhou.

Foi um dia muito bom. Com vários sentimentos. Mas no final dele eu ainda não sabia como agir com aquele gesto de despedida breve, desajeitado, leve e bom. Após poucas palavras na manhã daquela segunda, você me perguntou: Quer namorar comigo?

Inventei mil desculpas. Disse que ainda tinha muito a viver, que estava incerta e que não daria certo, que poderia ser algo platônico, e que eu realmente não me sentia pronta. Não depois de começar a me recuperar de uma grande decepção amorosa. Eu não queria me arriscar, ainda não quero. Você ficou chateado, como das outras vezes, mas... O que eu poderia fazer? Eu estava pensando em nós. Em não iludi-lo com algo que eu não sinto e que eu nunca vou sentir. Em não machuca-lo como fui machucada. Entretanto você, num gesto típico de paciência e persistência soltou um ''tudo bem, entendo você.'' Eu realmente esperava que entendesse.

Eu queria desesperadamente dizer não, mas me protelei. Você entendeu o recado, eram as  mesmas desculpas de um ano atrás, não eram? Fiquei pensando a semana inteira naquele beijo. Não posso dizer que tive arrependimentos, mas me perguntei por vezes ''Foi o certo? Eu o iludi?''

Já se passaram alguns dias. Semanas.E só hoje percebi o real motivo que me levou a protelar e por fim dizer não, eu queria que fosse de um jeito delicado, só que, meu bem, um não nunca saí de maneira delicada, -quase nunca.

Era seu caráter. Desculpe, mas temo dizer que sim. Como você um garoto que sempre, e eu digo realmente sempre  foi carinhoso comigo, que sempre se importou, se metesse em tantas encrencas? Como o garoto que conheci, se mete em brigas como alguém sem controle? Como alguém que nem você, poderia tratar os mais velhos daquela maneira, desafiando-os, chateando-os. Como o garoto que conheci parece ter duas faces?

E eu ainda o amo. Não como você espera, nem como amigo, mas com um amor fraternal. E é por isso, junto sua junção de mudanças, junto sua carência de um português decente - que eu corrijo mas você ignora veementemente, que me causa gastura -  e junto esse amor fraternal,  junto seu jeito moleque quando eu quero mais que um simples moleque que eu digo que não há futuro. Que eu digo um não sincero que talvez não seja indolor. Mas qual não é? Não, eu não aceito namorar contigo.

CRÔNICAS

Acho que sou romântica.

18:09




Acho que sou romântica. Não do tipo exatamente clichê.  Não é que eu fique por aí suspirando pelos cantos em meio a uma nuvem cor-de-rosa. Mas quem é que não se apaixona e não fica meio abobalhada?

Não que eu fique. É claro que é fofo um buquê de flores, mas que tal uma flor roubada no meio do caminho? Quem é que não se derrete com um simples sorriso de lado? Quem é que não pensa em algo  do tipo romântico? Quem nunca sonhou com um beijo roubado do amado, com um passeio no parque de mãos entrelaçadas?

Eu sonhei com tudo isso. Com o casamento e o vestido, sonhei com as lágrimas de tristeza pós brigas acompanhada de um filme melodramático e um pote de sorvete. Quem é que nunca se apaixonou? Quem nunca se apaixonou pela vida? Criei romances inexistentes com pessoas que nunca troquei mais que duas frases. Que nunca passei do bom dia e do boa tarde.

Sou do tipo que se apaixona platonicamente. Que diz ser romântica e assume pose de durona. Mas isso não quer dizer nada, não é?  Porque afinal ser romântica é algo bom, natural. É almejar viver um amor, ser feliz. Ser romântica é muito mais do que sair por aí, cantando poesias e transbordando coraçãozinhos. Ser romântica é ter apreço pela vida, pelo amor e pela felicidade. Então, se ser romântica é ser isso, então, sim. Eu acho que sou romântica.

CARTAS

Carta 01

21:22




   2006
  Olá, Ed.
  Eu me lembro do primeiro dia em que te vi. Você se lembra? Provavelmente não. Se for pra dizer a verdade, nem eu me lembrava. Isso, claro, até eu ver uma foto. Sua e de seu amigo, seu melhor amigo. Foram seus olhos castanhos, quase negros que me lembraram daquele dia.
  Era meu primeiro ano na escola, o seu também se não contarmos os anos na creche. Nossas salas eram uma ao lado da outra. Sua turma entrou primeiro. Eu e minhas amigas estávamos na fila. Você sorriu e seus olhos tinham um brilho que eu nunca serei capaz de descrever e acredite eu já tentei.
  Seu cabelo preto possuía  certos ares enrolados. Seu rosto branco possuía sardinhas embaixo dos olhos e na região do nariz, sua boca portava um sorriso que anos depois apelidei de sorriso cretino misterioso.Então minha turma começou a entrar na sala ao lado. A porta da sua se fechou. Eu entrei na minha sala.
  Me lembro de como eu me encantei, me lembro da amizade que surgiu na terceira série. Me lembro que eu me apaixonei perdidamente aos poucos sem saber quais poderiam ser os riscos e como tudo isso poderia me quebrar e o quanto demorou para eu me reconstruir.   Algo em você deveria ter me alertado de que você mudaria cada cantinho de mim, que amar você, minimamente ou com toda a intensidade que eu poderia mudaria tudo o que eu conheci. Você era encrenca. Uma das encrencas que eu mais amei.
  E foi por ama-lo, como amigo, como amor profundo que eu dei tudo de mim. Que eu assumi a possibilidade de me machucar mesmo na tenra infância.  E foi por amar você que eu ainda escrevo sobre nós. E como aquele dia, aquele primeiro olhar em 2006 mudou tudo.
E por mudar tudo, mudou o mundo, mudou o meu mundo.

                                                                                    Com amor, Amélie.

















CRÔNICAS

CRÔNICA: Ônibus

19:16





 Era sexta-feira. O terminal de ônibus lotado. Gente indo e vindo. Gente chegando e outros partindo. Eu estava partindo. Indo pra casa depois de uma manhã cansativa e uma caminhada que sempre me fazia suar. Entrei atenta, tinha sido roubada ali, na semana passada. Não que eu tivesse visto quando e como, nem quem fizera tal ato.

 -Senhor, este ônibus vai para o Iririu?

 Eu sabia que não iria. Era o ônibus que iria para a Dona Francisca, bem mas bem longe de onde o rapaz queria ir. O motorista não pareceu dar uma resposta satisfatória ou agradável. Logo partiu.
Parei o rapaz.

 -O ônibus para o Iririu chega daqui a pouco.- acrescentei - Depois desse.

 -Obrigado.

 Analisei rapidamente o rapaz. Usava farda militar, o rosto simétrico e exalava algo que eu não sabia dizer o que era, realmente. O ônibus chegou um ou dois minutos depois. O rapaz parecia distraído. Me aproximei novamente.

 - Acabou de chegar.

 O rapaz assentiu e agradeceu. Caminhei até o ônibus um pouco na frente, era o mesmo ônibus que eu pegaria. O ônibus não ficou lotado, Mas a maioria dos lugares estava ocupada. Eu permaneci em pé, junto a área para cedeira de rodas, que agora jazia vazia. O rapaz ficou em pé, na porta. A postura rígida, mas parecia distante, cansado.

  Minutos depois, provavelmente quinze chegamos ao terminal. Na hora de descer a porta do ônibus travou, e ao invés de abrir ambas as portas duplas uma emperrou. Nessa altura eu estava ao seu lado. Fiquei indecisa, afinal era a porta que estava do seu lado, me virei e você pareceu perceber minha indagação muda e assentiu.

 Passei por você. O ônibus tinha estacionado longe da calçada, então com cuidado me apoiei no corrimão, e pulei. Em chão firme, me virei para você ainda estático no mesmo lugar, abri um sorriso e soltei:

-Grata!- você, o rapaz sorriu. Me virei e fui ver se o meu ônibus já tinha chegado. Não tinha. Me sentei, minutos depois chegou. Entrei. A esperança de que fosse o mesmo ônibus comoveu minha alma. Mas não era. Vi você entrando no banheiro e saindo logo depois. O meu ônibus saiu em seguida. Deixando-o para trás. Eu nunca mais o veria. Mas tudo bem.

 O que me impressionou mesmo foi a sua educação, a maneira polida e cortês. Havia algo a mais eu sabia. Sua presença exalava confiança, proteção. Foi uma experiência boa. Eu só não tinha certeza, mas algo em mim dizia que eu já o vira, saindo do batalhão após a seleção. Você, se era você, parecia ter sido escolhido.

 Então, de qualquer maneira, foi bom conhece´lo. Seria mesmo a última vez que eu o veria? Não faço ideia, mas tudo bem. Espero que tenha tido um bom fim de semana. Adeus.



CRÔNICAS

CRÔNICA: Indomável.

20:30


  A verdade meu amigo é que você não pode dominar um gato. Ou você até acha que pode, mas isso é só o ego humano, dizendo que você realmente o domina. Não querido, você não pode dominar uma alma selvagem, ela pode ser amansada mas nunca deixará de ser... selvagem.

 Você não vai ver um gato correr atrás de você como um cachorro, são raças diferentes, com comportamentos divergentes.  Você não o irá ver pular em você quando chegar em casa, mas às vezes ele pode te esperar na calçada de casa no horário que ele sabe que você chega. E não será porque ele quer comida. Não... Bichanos não precisam esperar para isso, sua áurea selvagem os impele a caçar, nem que seja uma simples baratinha.

 Você perceberá que ele anda com elegância, esta nunca vista antes em nenhum outro ser, só nas famílias felinas. Você perceberá a hierarquia e o respeito. Uma gata grávida come primeiro, uma gata com filhote é sempre o filhote que come, não importa se há um macho na casa, se ha mais gatas ou gatos. É o filhote. Depois de certo tempo a hierarquia volta ao que era.

 Você verá que miados podem ser diferentes. Que não importe o quanto você o ame, ele não irá demonstrar da maneira que você quer. Gatos são sutis. Ele irá ronronar para você, fechará os olhos em sua presença e até o deixar acariciar vez ou outra sua barriga. Se ele o fizer, ele confia em você. E confiança é algo que só adquirimos com o tempo, com amor. Ele se deixou vulnerável a você, e ser vulnerável pode colocar sua vida em risco. Mas ele simplesmente  confia o bastante em você para ter certeza de que nada o irá acontecer naquele instante de descuido.

 Um gato pode ser manso, o mais manso que você imaginar. Você poderá massagear o couro que circunda seu pescoço, passar o pé em sua barriga, o segurar pelo pescoço sem que ele o arranhe, nem morda.  Mas não há nada que o segure quando ele não quiser ser segurado. É isso que precisamos entender,  eles precisam de nós, mas sabem que também precisam ser eles, gatos são independentes, você também deveria ser. Ser independente não quer dizer que você não ame, mas que é seguro de si, que sabe reconhecer quando precisa ou não de outro. Quando está pronto ou não para algo.

 Gatos são indomáveis. Eles são fiéis a si mesmos, e isso meu amigo é o mais importante.  Eles também são leais a quem confiam. Eles são territoriais e cuidam do que os pertencem. Amam sem medida, como os cães. Conseguem entender as diferenças do outro, e aprendem a lidar com elas.

 Gatos são curiosos. Eles exploram o seu pequeno mundo. Correm atrás do que querem, seja isso uma bolinha pequena, o rato que está no lugar errado na hora errada - o lugar certo seria o estomago dos bichanos? - seja seus donos. Que donos mesmo?

 Dizem que os cães enxergam o humano como seu alfa, o primeiro aquele que dá a segurança, o conforto e que provém tudo o que precisam. Gatos vêem seus humanos como um gato gigante, um ser igual a eles, sem adoração alguma, igual para igual.

 Gatos lutam com graça e ferozmente. Gatos sabem o que querem e quando querem não há quem segure. Se algo for seu ficará ao seu lado. Acredito fielmente nisso. Há gatos que ficam conosco por pouco tempo e se mudam de casa, de humano, de vida. Há gatos que somem por dias nesse mundão de Deus e voltam, podem voltar como se não houvesse sido nada, como se seus humanos não tivessem um mini-ataque cardíaco. Mas sua intonação - do miado - é diferente, é feliz.

 Não tente segurar um gato por mais tempo do que ele quer. Se ele quiser ele quer, se não quiser, aprenda a lidar com isso. Não o prenda a um só lugar quando ele pode ter tudo e decidir se ele quer ficar. Deixe os livres, e essa será sua prova de amor, prova essa que ele respeitará e entenderá.  

 Deixar a liberdade a alguém se nos quer ou não é precioso. Seja como um gato. Gracioso, sutil e com uma alma indomável. Encontre alguém que o queira e o aceite assim. E então você será feliz. Sua intonação de voz vai mudar, seus gestos também. Saiba respeitar quem você é e deixe que o respeitem assim também. Se não respeitarem, meu amigo... Seu lugar não é ali. E aliás, você tem pernas pra quê?

  

A IGREJA

CRÔNICA: Sua casa é seu reflexo

18:00


Estamos na sua casa. De repente um estranho entra e suja sua grama, então saí, sem dizer nada. Outro chega e até bate palmas. Mas joga ali no cantinho bem perto da flor - a sua preferida- uma panela com água quente e óleo de cozinha.  E você não faz nada, porque... bem, são desconhecidos, e você não tem o direito de lhe chamar a atenção, né? Mesmo que seja sua casa... Só vai acontecer uma vez.
Sempre temos essa ideia.

Pense na sua casa como um lugar comum a todos que vivem nela. Vocês cuidam dela, certo? E a sua casa fica exatamente a onde? Em uma rua, em um bairro, de uma cidade, de um estado, de um país, de um continente, de um planeta, de uma galáxia, pertencente a um universo...

Falar sobre o consumo consciente de água, da importância do saneamento básico é clichê demais. Nunca fui muito adepta a clichês. Mas a uma verdade que não podemos omitir, um clichê muitas vezes é real, verdadeiro.

Seu banho de quinze míseros minutos gasta aproximadamente 135 litros de água. Se esse tempo for de pelo menos cinco minutos  são utilizados apenas 45 litros.  A água quente caindo em suas costas e relaxante. O vapor quentinho lhe trás um conforto atípico em dias de inverno.

O saneamento básico em sua casa, um esgoto mais refinado, tratado, é direito de todos, aliás, o mesmo deveria funcionar adequadamente em todos os lugares do mundo, inclusive nos lugares mais precários.  Entre seus processos de tratamento estão o tratamento de água, canalização e tratamento de esgotos, até mesmo a limpeza das ruas e avenidas, o tratamento dos resíduos orgânicos por meio do do aterro. No Brasil, apenas 57%8 das residências são atendidas pela coleta de esgoto.

Sabemos que isso não depende só de você, depende do governo também. Voltamos a sua casa, agora, me responda como você realmente cuida dela? Você limpa quando suja? Você organiza quando está desorganizado? Evita danificar seus ambientes? Deixa a casa ser arejada? Quantas pessoas moram na sua casa? Todos cuidam dela? Um lugar calmo, limpo e passivo é agradável a todos.  Contudo todos devem se esforçar para manter isso em harmonia.

Como você cuida do universo? Você cuida dele como de sua casa?


* Texto baseado na campanha da fraternidade no Brasil ''Casa comum: Nossa responsabilidade.'' para um trabalho de escola.  Isto, é claro, publicado só depois da apresentação.

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